Rio de Janeiro ganha computador quântico educacional considerado o mais moderno do Brasil

Federico Corvelli
12 Min Read

Triangulum II foi instalado no DigiTech da Firjan SENAI e será utilizado para formar profissionais, pesquisadores e estudantes e testar aplicações voltadas aos desafios da indústria.

O Rio de Janeiro passou a contar com uma nova estrutura dedicada à formação em computação quântica. A Firjan SENAI apresentou o Triangulum II, computador quântico educacional instalado no DigiTech, Centro de Referência em Tecnologia da Informação e Comunicação da instituição, localizado no Eco Sapucaí, na Cidade Nova. Segundo a Firjan, o equipamento é o primeiro desse tipo instalado no estado.

Apresentado em 8 de setembro, o equipamento da SpinQ foi incorporado à estrutura tecnológica da Firjan SENAI a partir de uma parceria com a empresa Dobslit. A proposta é permitir que estudantes, pesquisadores, profissionais e empresas tenham contato direto com hardware quântico real, em vez de depender exclusivamente de simuladores ou plataformas remotas.

O Triangulum II é um dos três computadores quânticos educacionais existentes no Brasil e, de acordo com a Firjan, o mais moderno deles. Diferentemente das máquinas quânticas de grande escala utilizadas em centros avançados de pesquisa, o equipamento possui finalidade principalmente educacional e experimental, permitindo estudar conceitos, desenvolver algoritmos e realizar provas de conceito.

A chegada da tecnologia ao Rio também busca aproximar a indústria de uma área considerada estratégica para os próximos anos. Setores como petróleo e gás, energia, telecomunicações, logística, serviços financeiros, química, farmacêutica, tecnologia e segurança estão entre aqueles que poderão explorar futuramente aplicações relacionadas à computação quântica. (Firjan)

Como funciona o novo computador quântico instalado no Rio?

O Triangulum II é um computador quântico compacto de três qubits. Enquanto computadores tradicionais processam informações utilizando bits representados pelos estados zero ou um, sistemas quânticos utilizam qubits, que exploram propriedades da física quântica para representar e manipular informações de maneira diferente.

O equipamento instalado no Rio utiliza tecnologia baseada em Ressonância Magnética Nuclear, conhecida pela sigla RMN. Uma das vantagens dessa arquitetura para ambientes educacionais é a possibilidade de funcionamento em temperatura ambiente. Grandes computadores quânticos baseados em outras tecnologias podem exigir complexos sistemas de refrigeração e temperaturas extremamente baixas para funcionar.

Essa característica torna o Triangulum II adequado para laboratórios de ensino e pesquisa aplicada. A máquina não exige toda a infraestrutura encontrada em grandes instalações quânticas e permite que alunos e profissionais executem experimentos diretamente em um hardware real, compreendendo na prática os fundamentos da programação e do processamento quântico.

Apesar disso, a finalidade do equipamento não é competir com supercomputadores nem resolver imediatamente grandes problemas industriais. Com três qubits, sua principal função é preparar profissionais, testar conceitos e permitir o desenvolvimento de conhecimentos que posteriormente poderão ser utilizados em plataformas quânticas de maior capacidade. (Diário do Rio)

Equipamento será usado para formar profissionais

A formação de mão de obra especializada é uma das principais justificativas para a instalação do computador no DigiTech. A computação quântica ainda está em uma fase inicial de adoção comercial, mas empresas, universidades e governos já disputam profissionais capazes de compreender e desenvolver aplicações para essa tecnologia.

A estratégia da Firjan SENAI é antecipar parte dessa demanda. Estudantes, pesquisadores e profissionais poderão aprender conceitos relacionados à computação quântica utilizando um equipamento físico, desenvolvendo competências antes que sistemas mais poderosos se tornem amplamente disponíveis para aplicações comerciais.

A estrutura também poderá ser utilizada por empresas interessadas em entender como a tecnologia pode se relacionar com seus negócios. Em vez de esperar pela maturidade completa da computação quântica, organizações poderão começar a identificar problemas que eventualmente poderão ser tratados com novos tipos de algoritmos e arquiteturas computacionais.

O DigiTech já funciona como um centro dedicado à formação e ao desenvolvimento tecnológico. Instalado no Eco Sapucaí, o espaço reúne laboratórios relacionados a software, hardware, redes, inteligência artificial e cibersegurança. Segundo informações divulgadas sobre a estrutura, o centro possui capacidade para formar mais de 9 mil profissionais por ano. (Diário do Rio)

Indústria poderá desenvolver provas de conceito

Além da formação profissional, o computador poderá ser utilizado para desenvolver provas de conceito relacionadas a problemas reais da indústria. Esse tipo de projeto permite testar se determinado desafio possui características adequadas para ser tratado futuramente por sistemas quânticos mais avançados.

Um dos exemplos apresentados envolve operações em plataformas de petróleo. Uma empresa pode precisar combinar diversas variáveis ao mesmo tempo, como rotas de helicópteros e embarcações, condições meteorológicas, consumo de combustível, disponibilidade de equipes e necessidades de manutenção.

Problemas desse tipo são conhecidos como desafios de otimização. À medida que o número de variáveis aumenta, encontrar a melhor combinação possível pode se tornar extremamente complexo. A computação quântica é estudada justamente por seu potencial para abordar determinadas classes de problemas de otimização, simulação e análise.

Os testes realizados no equipamento educacional não significam que a máquina de três qubits executará sozinha grandes operações industriais. A proposta é desenvolver modelos, algoritmos e conhecimentos que possam posteriormente ser transferidos para plataformas quânticas de maior capacidade conforme a tecnologia evoluir. (Ti Rio)

Petróleo, energia e telecomunicações estão entre as áreas de interesse

A instalação do equipamento no Rio possui uma relação direta com setores importantes para a economia fluminense. Petróleo e gás aparecem entre as áreas com potencial para desenvolver aplicações relacionadas à otimização de operações, logística e processamento de grandes quantidades de variáveis.

O setor de energia também acompanha a evolução da computação quântica. Sistemas elétricos envolvem problemas complexos de planejamento, distribuição, previsão e gerenciamento de recursos, áreas nas quais novos métodos computacionais poderão ganhar espaço conforme o hardware quântico evoluir.

Telecomunicações, logística, serviços financeiros e segurança da informação também aparecem entre os setores interessados. Instituições financeiras, por exemplo, pesquisam aplicações relacionadas à otimização de carteiras, análise de risco e modelagem, enquanto empresas de logística estudam maneiras de melhorar rotas e alocação de recursos.

Outras possibilidades citadas pela Firjan incluem química, indústria farmacêutica, métodos de produção e segurança nacional. Entretanto, muitas dessas aplicações ainda estão em estágio de pesquisa e desenvolvimento, e a existência de potencial tecnológico não significa que computadores quânticos já sejam superiores aos sistemas tradicionais em todas essas tarefas. (Firjan)

Computador quântico não substitui as máquinas tradicionais

Uma das diferenças importantes para compreender o Triangulum II é que computadores quânticos não foram desenvolvidos simplesmente para substituir notebooks, servidores ou supercomputadores convencionais. As duas arquiteturas trabalham de maneiras diferentes e podem ser utilizadas de forma complementar.

Computadores clássicos continuam sendo extremamente eficientes para a maioria das atividades realizadas atualmente. Sistemas quânticos são pesquisados principalmente porque determinadas categorias específicas de problemas podem, no futuro, apresentar vantagens quando tratadas por algoritmos desenvolvidos para esse tipo de arquitetura.

No caso do equipamento instalado no Rio, essa distinção é ainda mais importante. O Triangulum II possui três qubits e foi projetado principalmente para educação, demonstrações e experimentação. Seu valor está na possibilidade de permitir contato direto com um computador quântico real e não em substituir infraestrutura computacional convencional utilizada pelas empresas.

A própria Firjan compara a função educacional do equipamento à de um simulador utilizado na formação de pilotos: ele permite aprender conceitos, experimentar procedimentos e desenvolver conhecimento antes do contato com sistemas muito maiores e mais complexos. (Diário do Rio)

Por que a computação quântica desperta interesse?

O interesse está relacionado à maneira como os computadores quânticos processam informações. Em determinados problemas, propriedades como superposição e interferência quântica podem ser utilizadas para desenvolver formas de cálculo diferentes das empregadas pelos computadores clássicos.

Isso abre perspectivas para áreas que exigem a análise de grande quantidade de combinações ou simulações complexas. Entretanto, transformar esse potencial teórico em vantagens práticas exige avanços simultâneos em hardware, algoritmos, correção de erros e formação de profissionais.

Por esse motivo, centros educacionais e empresas começaram a investir não apenas em máquinas, mas também em qualificação. Quando computadores quânticos mais avançados estiverem disponíveis comercialmente, organizações precisarão de pessoas capazes de identificar quais problemas realmente podem se beneficiar da tecnologia.

A instalação no Rio segue essa lógica. Em vez de esperar que a computação quântica esteja totalmente consolidada, a Firjan SENAI pretende utilizar o Triangulum II como instrumento para construir conhecimento e preparar profissionais para uma tecnologia que ainda está em desenvolvimento. (Firjan)

Rio amplia estrutura para tecnologias avançadas

O Triangulum II passa a integrar uma estrutura que já reúne outras tecnologias consideradas estratégicas. O DigiTech foi inaugurado em 2025 e ocupa mais de 2,5 mil metros quadrados no Eco Sapucaí, na região da Cidade Nova.

O centro possui ambientes voltados para inteligência artificial, desenvolvimento de software, hardware, redes e cibersegurança. A incorporação da computação quântica amplia esse conjunto e cria uma nova frente de capacitação tecnológica dentro do estado.

A localização também aproxima o equipamento de empresas, universidades e instituições instaladas no Rio. A expectativa é que essa proximidade facilite projetos de pesquisa aplicada, capacitação e provas de conceito envolvendo desafios apresentados pela indústria.

Com a instalação do Triangulum II, o Rio de Janeiro passa a integrar o pequeno grupo de estados brasileiros com acesso a um computador quântico educacional físico. Mais do que capacidade computacional, o projeto aposta na formação de pessoas e na preparação antecipada para uma tecnologia que poderá ganhar espaço em diferentes setores da economia nos próximos anos. (Firjan)

Fontes: Firjan — apresentação oficial do Triangulum II · Agência Brasil — computador quântico passa a ser usado no SENAI · TI Rio — computador quântico educacional no Rio de Janeiro.

Share This Article